Esta é a minha experiência, a minha história em como a pessoa alegre que sempre fui foi desaparecendo sem eu conseguir sequer agarrá-la. A história de como os meus dias coloridos foram perdendo a cor e caí na depressão.
É complicado entender onde tudo começou, sei que de manhã acordava sem vontade para nada e fazia um esforço irreal para ter um dia normal. Ansiava por voltar a casa e enterrar a cabeça na almofada. Fui arrastando esta situação pensando que era uma fase, que andava stressada e que com o tempo tudo iria voltar ao normal. Enganei-me. As coisas pioraram: comecei a perder o apetite, comecei a deixar de gostar de fazer as minhas coisas, deixar de sentir que tinha valor. Pior de tudo foi perder o sentido do meu eu. Não existiam razões para me sentir assim! Felizmente estava a trabalhar, a minha família estava bem, o meu namorado e eu não tínhamos nenhum problema. Toda esta falta de explicação para aquilo que estava a sentir deixava-me revoltada comigo própria. Passaram cerca de 4 meses até entrar em colapso. Com a perda de apetite mal me alimentava, ganhei um problema de estômago que me impedia de aguentar a comida e passei dias a vomitar. A dor psicológica transformou-se em dor física e aí apareceram as insónias. Foram cerca de 6 dias sem dormir e nesses dias, foi como andar perdida num labirinto sem saída. Começaram a surgir os piores pensamentos: querer desaparecer e como poderia fazê-lo.
Foi aí que quem estava à minha volta levou-me ao psiquiatra. Onde eu já devia ter ido há muito tempo, por iniciativa própria.
Quando chegamos a este ponto não pode haver negação, precisamos de ajuda e ponto final. Foi uma sessão de mais de uma hora a falar com o psiquiatra, eu só lhe pedia que me desse algo para dormir, precisava de descansar e já não conseguia sequer raciocinar. Já tinha lapsos de memória, estava totalmente perdia. Foi quando ele me agarrou pela mãos olhou-me nos olhos e me disse "Tu hoje vais dormir, e tu vais ficar bem, acredita". Disse à minha mãe que em 15 dias eu iria voltar ao meu estado normal. Assim aconteceu, com a medicação certa, descanso e MUITO apoio de todos os que realmente gostam de mim, voltei a ter chão. Voltei a ver os meus dias de forma colorida, voltei a querer viver.
Na segunda consulta ele fez-me entender, aquilo que eu já devia ter entendido, uma vez que estudei psicologia. Ele tinha razão, os psicólogos são os mais difíceis de tratar.
O que se passou afinal?
Uma depressão sem causas externas, dificultando ainda mais a sua compreensão. Um desiquilíbrio na química do meu cérebro suficiente para me fazer mergulhar numa tristeza profunda, da qual não dá para sair sem ajuda.
Neste tipo de depressão a pessoa sente uma tristeza mais intensa e desproporcional, falta de prazer. Por não ter nenhuma causa identificável os fármacos são a primeira escolha do tratamento.
Tomo a medicação ha 8 meses, no início era um cocktail autêntico, para além da depressão precisei de reestabelecer o apetite, o sono e o peso. Estava com 46 kg, sem sequer me aperceber disso. A medicação fez-me voltar a erguer a cabeça. Também me deu uns kilinhos: mais de 10 kg para ser precisa. Mas prefiro estar com uma banha aqui e ali do que sentir-me um pedaço de nada.
Porque conto isto? Primeiro porque acho que não é preciso ter vergonha, nem de ir ao psiquiatra nem de tomar medicação. Foi o necessário , foi o que me fez voltar ao normal. Segundo, se algum dia sentirem o que eu senti, não deixem arrastar a situação e procurem ajuda. Falem com alguém, psicólogo, psiquiatra, sem medos. Estas historias têm de ser partilhadas porque são cada vez mais comuns. Se eu não tivesse tido o apoio que tive não sei o que teria acontecido. Por isso não se isolem, quem vos ama não vos deixa cair. Haverá sempre alguém que estende a mão para nos ajudar a levantar. Acreditem nisso :)





